
Douglas e Hanster, integrantes do Palma Preta, guiaram a caminhada
Como parte da programação do Sextas Abertas do dia 14, integrado às atividades do Novembro Negro, a Faop promoveu o walk tour “Arraial de Antônio Dias: Reconhecimento do Território dos Jacubas”, uma caminhada conduzida pelo Circuito Palma Preta, coletivo que atua no afroturismo e na valorização da memória negra em Ouro Preto. A proposta teve como objetivo resgatar narrativas invisibilizadas e reconhecer a contribuição de pessoas negras e indígenas na formação do território ouro-pretano.
O percurso teve início no Arraial de Antônio Dias e seguiu até a Igreja de São Francisco, passando pelo Morro da Forca, local de forte simbolismo histórico. Durante a caminhada, foram apresentados contextos que explicam como a cidade foi moldada pelo ciclo do ouro e pela presença fundamental das populações negras e dos povos originários, antes da chegada dos bandeirantes.
O tour também abordou o protagonismo das pessoas negras na construção de Ouro Preto. Muito além da força de trabalho, seus saberes, técnicas e conhecimentos foram determinantes para erguer pontes, igrejas, casas e para desenvolver práticas que marcaram a paisagem urbana e cultural da cidade.
Outro ponto explorado pelo grupo foi a origem do termo “jacuba”, associado historicamente aos moradores do Arraial de Antônio Dias. De forma sintética, o Circuito Palma Preta explicou que o nome está ligado tanto aos primeiros trabalhadores paulistas que ocuparam a região, conhecidos como “comedores de farinha”, em contraposição aos “comedores de mocotó” do Pilar, quanto a relatos sobre o uso de penas de jacu para adornar chapéus e botas, prática que também teria contribuído para a denominação. Essas referências ajudam a compreender disputas territoriais históricas e elementos culturais que marcam a identidade local.
Entre as reflexões apresentadas, chamou atenção o impacto global da exploração do ouro em Minas. Segundo o circuito, a riqueza extraída em Ouro Preto foi enviada a Portugal e gerou lucro até para a Inglaterra, que teria financiado parte da Revolução Industrial com esse recurso, marcando a transição do mercantilismo para a industrialização.
Ao comentar o trabalho do projeto, Douglas Aparecido, do Circuito Palma Preta, explicou que a iniciativa nasceu em 2017, a partir de uma demanda de estudantes da UFRJ por um roteiro que apresentasse o território sob uma perspectiva científica. “Como a gente já vinha fazendo os estudos nas galerias subterrâneas e discutindo métodos construtivos, entendemos que era possível apresentar o território dessa forma. A partir daí, começamos a desenvolver um repertório de conteúdos, fazendo leituras de teses, livros históricos e pesquisas, o que nos permitiu entender melhor essa região do Mocotó, Padre Faria, Antônio Dias, Morro da Queimada, um território que produziu a maior quantidade de ouro nas primeiras décadas do século XVIII”, destacou. Segundo ele, esse aprofundamento tem guiado o coletivo a falar e apresentar cada vez mais essas histórias.
Ao conduzir esta experiência, o Circuito Palma Preta reforça a importância de resgatar histórias que ainda ecoam no cotidiano ouro-pretano. O walk tour destacou que Ouro Preto é, sobretudo, um território de resistência, criatividade e saberes preservados, uma cidade onde natureza, arquitetura e memória negra permanecem vivas e presentes.
